Sobre auto-imagem, auto-estima, e umas piras que todo mundo tem

A uns dias atrás fiz uma postagem nos stories do meu Instagram com algumas enquetes sobre auto-imagem, mais especificamente sobre traços e características do nosso rosto. As perguntas questionavam desde a importância da simetria, até a função da maquiagem, e esses foram os resultados:

Nas quatro primeiras perguntas, que eram mais específicas, a maioria das pessoas respondeu que se observa bastante no espelho, que tudo bem não ser simétrico ou ter sobrancelhas idênticas, mas não lidam bem com os poros. Nas outras duas, a maioria disse que tem vontade de mudar algo no rosto de forma temporária, mas também coisas de forma definitiva (podem ser as mesmas coisas, ou não).

Na sequência, coloquei dois boxes de pergunta. No primeiro perguntei “qual detalhe do seu rosto mais te incomoda”, e no segundo, “o que você mais gosta no seu rosto”. Foram mais ou menos 200 respostas para cada box. Fui listando as respostas, somando a quantidade das mesmas, e fiz esses gráficos simplórios, sem harmonia de cores, mas eficientes na comunicação hahaha! Deem uma olhadinha!

QUAL O DETALHE DO SEU ROSTO QUE MAIS TE INCOMODA?

O QUE VOCÊ MAIS GOSTA NO SEU ROSTO?

Minha intenção não era fazer um levantamento científico sobre “por que a maioria das pessoas odeia seu nariz” ou “o que os olhos e a boa tem de especial para receberem maior aprovação de seus usuários” hahaha! Nem tenho como analisar isso de forma científica. Eu fui curiosa, e queria que cada pessoa que colocou essas respostas pensasse no porque se incomoda com determinado traço ou gosta de outro, de forma bem pessoal mesmo.

Pulando uns dias pra frente, no último final de semana rolou um over de compartilhamentos das simulações de idade do aplicativo FaceApp. Sem entrar no mérito da questão de que possivelmente nós todos não lemos os termos e cedemos informações para uma empresa russa (sim amigos, depois deem um Google nisso, bizarro), o aplicativo era capaz de envelhecer os nossos traços sei lá, uns 30 ou 40 anos, de forma super realista. Fiz o meu (e de mais quase todo mundo da família, socorro! A empresa russa coletou coisa da gente hein!). Meu amigo Miguel disse que eu fiquei parecida com a Helen Mirren. Uma vez que ele tem um bom gosto absurdo e eu acho ela lindíssima, eu acreditei! Te amo, Miguel.

Aí juntou tudo. Eu já estava engatilhando esse post, e achei que os assuntos se completavam. E você pode conferir a junção dos assuntos feita na minha cabeça, transferida em forma de texto, agora! 😀

Sobre auto-imagem, auto-estima, e umas piras que todo mundo tem – o texto

Eu cresci muito rápido. Muito rápido mesmo. Sou a mais velha de 4 irmãos, e só 2 anos mais velha que o meu irmão Paulo, mas aos 10 anos eu já tinha quase o dobro da altura dele (que hoje é mais alto que eu). Nas fotos dos primos, num grupo de 5 crianças perfeitamente alinhadas em termos de estatura, eu destoava. Na família tudo bem, mas e no colégio, esse ambiente amoroso e cheio de crianças educadas e gentis (só que não mesmo)? Com certeza o apelido mais criativo que já me deram, dentre muitos, foi Sugi. O menino ainda se fazia de meu amiguinho, e me chamava assim todos os dias. Acho que me chamou assim por meses antes de eu perguntar o que era. Sei lá, talvez eu pensasse que era alguma referência japonesa, já que meus olhos são pequenos e apertadinhos, principalmente quando eu sorrio. Mas não. “Supositório Gigante”, ele respondeu sem hesitar, e saiu rindo com os outros meninos. Hoje eu até admiro a criatividade linguística dele.

Mas assim né, não são só as McOfertas que vem em forma de combo nessa vida. As espinhas começaram a aparecer quando eu tinha 11 anos. O nariz extremamente redondo e um tanto grande despontou. Meu cabelo não sabia se era crespo, ondulado, meio liso, só sabia que queria armar sem nenhuma preocupação de definir o seu formato. Minhas bochechas decidiram ficar gigantes. Ah, e além de muito alta, eu era muito, muito, muito magricela. E nerd.

Acho que é mais ou menos nesse período da vida que as piras começam a vir visitar a gente (na minha época pelo menos). Antes dos 10 eu só queria brincar de boneca, de padaria de terra (pensa nuns bolinhos lindos e decorados que a gente fazia no quintal da nossa casa!), de inventar teatros e obrigar meus irmãos a atuarem (tinham teatros para quase todos os feriados do ano, e quando se tem 3 irmãos mais novos, se tem um elenco!). Mas bem na época que eu comecei a dar uma certa bola para a opinião alheia, a McOferta da pré-adolescência me foi entregue de delivery, e eu nem tinha pedido.

Não tinha nada que eu gostasse na minha aparência. Nada mesmo. Eu me definia como “uma menina feia” sem ter dúvida alguma sobre isso. Ah, e quando eu passei dos 15 e me dei conta de que meus peitos definitivamente não iam crescer sozinhos, acho que foi aquele adicional que a gente pede pra colocar no lanche e não dá certo na combinação de sabores.

Que fase!

To contando isso porque eu acredito muito que as interferências externas afetam demais a forma como a gente se vê no espelho. Imagine se ninguém fosse capaz de ter gosto sobre coisa nenhuma. Se a gente não tivesse opinião sobre “belo” e “feio”. Você acha mesmo que ia ter as mesmas opiniões sobre a sua própria imagem? Eu duvido. Mas ter gosto é uma coisa maravilhosa, não acho que seria legal sermos incapazes de apreciar fatores estéticos. A questão toda é o que a gente faz com essa capacidade, e o quanto ela serve pra apreciação, e não para julgamento. Até porque, quando cai a ficha de que “gosto é que nem ___________, cada um tem o seu”, a gente deveria se recolher ao nosso quadrado e aceitar as diferentes configurações de belo, já que o que é belo pra mim não precisa ser belo para absolutamente mais niguém!

Narigão, poros abertos, mini peitos. Esses são os 3 detalhes sobre a minha imagem que mais me incomodaram a vida inteira. Que mais me fizeram chorar e me achar muito feia e desajustada. E o que mudou? Sim, porque algo mudou.

Não acordei um dia me achando perfeita, e nem passo hoje em dia pela semana sem encrencar com nada na frente do espelho. Auto-imagem é uma coisa que a gente constrói, destrói e reconstrói durante a vida toda. O que mudou foi a minha compreensão de certas coisas.

Primeiro de tudo, entendi que imagem não me define, ela me expressa. O que vem de dentro tem uma voz tão alta que oculta até mesmo as palavras. E adaptando, o que vem de dentro fala tão alto que altera a imagem. Corações belos deixam rostos mais bonitos.

Entendi também que a marca que eu posso deixar no mundo nada está relacionada com o tamanho do meu nariz. E eu decidi me mover mais por isso do que por “estar bonita”. Eu quero ser relevante, acrescentar alguma coisa, ajudar de alguma forma.

Outra coisa é aquilo que já falei aqui, o belo é questão de referência e perspectiva. Quando comecei a namorar o meu marido, comentei com ele sobre as minhas piras estéticas (eu ainda me achava bem horrorosinha quando a gente se conheceu. Eu sempre achei a vida toda que os meninos que gostaram de mim deviam me achar legal pra caramba, super estilosa, mas não bonita né, “sejamos realistas”), e ele na hora ficou BEM surpreso. Tipo BEM surpreso mesmo!!! Ele falou “sério mesmo? Eu juro que são as coisas que eu mais acho bonitas em você! Eu adoro seu nariz redondinho, acho ele lindo!” Eu dei risada né! “Esse menino deve estar maluco, ou pelo menos querendo que eu goste mais ainda dele com essa conversinha”. Mas aqui estamos, 9 anos depois, e ele continua dizendo a mesma coisa. E eu não aceitei meu nariz por causa dele não! O que aconteceu foi que eu comecei a pensar que “mano do céu, se ele acha esse meu nariz de bolota tão bonito, pra ele deve ser mesmo! Belo deve mesmo ser questão de perspectiva então”, e decidi mudar a minha. Porque é horrível se olhar no espelho e não se achar bonita! É injusto e é cruel!

Nesse momento eu percebi também que era horrível viver na esperança de um dia ter dinheiro pra fazer todas as plásticas que eu “precisava”, pra só então me achar bonita. E não pense que o meu marido me proibiu por gostar das minhas características. Até hoje, em todas as mudanças estéticas que eu já falei de fazer, ele me fala pra fazer independente do gosto dele, pra pensar no que vai me fazer feliz enquanto pessoa. O que mudou foi que eu entendi o quanto eu era cruel comigo mesma exigindo que tudo aquilo que não era “perfeito” TINHA que mudar pra ter valor.

Eu sempre falo que não sou contra intervenções estéticas. Sou contra determinações estéticas e padrões que escravizam. Você pode mudar alguma coisa na sua aparência, mas se algo não mudar antes no seu coração, nada vai ser suficiente! Tem um Destaque no meu Instagram chamado belezareal onde eu falo mais sobre esse ponto.

“Beleza não se põe à mesa”, disseram todas as mães, sempre. Quando a gente tá com fome, quer uma comida gostosa. Ela não precisa estar empratada para o Master Chef. Claro que comer um prato lindo enche os olhos e é uma delícia, mas se ele não tiver sabor, valeu de que o investimento?

E aí, ainda tem a questão do tempo (e do FaceApp). Sendo bem realista, a única alternativa real contra o envelhecimento é a morte. Em vida, não tem plástica, harmonização facial, botox ou preenchimento com ácido que seja capaz de impedir totalmente o tempo de passar (e marcar). Eu não sei de ninguém que fez tantas plásticas bem sucedidas e intervenções estéticas modernas que aos 70 parece ainda ter 25 anos. Na real, já viu que parece que quanto mais a pessoa interfere em si, mais irreal ela fica? Mais descaracterizada de si mesma? Irreconhecível no “antes e depois”? Então porque tratamos o tempo como um vilão que podemos destruir, se ele é um personagem inevitável da história? Inevitável e democrático, porque ele passa para, sem exceção, todos. Porque não reajustamos também essa perspectiva sobre o envelhecimento, e aceitamos que as marcas são as nossas histórias, emoções, a nossa vida contada no rosto? É claro que a gente pode e deve se cuidar, mas o que será que mudaria no nosso coração se a beleza estética não fosse um fim em si mesma? Se compreendêssemos o valor da beleza interior, do amor ao próximo, de contribuir para o mundo, de ser uma pessoa divertida, de investir em desenvolvimento interior, de se amar pelo todo… o que veríamos de diferente quando nos olhássemos no espelho?

E acabei nem falando de como enxergo a relação disso tudo com a maquiagem, vai ficar pra depois. Mas acho que consegui expressar um pouquinho sobre o que eu penso (e sinto) sobre esse assunto. Vou deixar o fim assim mesmo, com alguns pontos de interrogação pra gente pensar sobre o assunto, e se possível, reconstruirmos uns pedacinhos da nossa auto-imagem também

E caso você esteja se perguntando, hoje eu me acho linda.

8 comentários sobre “Sobre auto-imagem, auto-estima, e umas piras que todo mundo tem

  1. Li teu post e lembrei taaanto de mim mesma… eu também recebi o tal delivery na adolescência e não parou mais de chegar. Até hoje lido com breakout de espinhas, pele oleosa, poros que parecem crateras, mas também consegui rever meu olhar sobre isso. Esses dias até fiz um post sobre a questão do corpo que me tocou demais, depois dele me senti tão mais “livre” do padrão, sabe
    É ótimo nós revermos nossos conceitos e entendermos nosso corpo como sendo só um corpo. Entendermos mais ainda que cada corpo é diferente e que nossas diferenças é o que nos fazem bonitas… não importa o tamanho, peso, estatura, cor… somos lindas pq acreditamos em nós e no nosso potencial.
    Realmente, beleza não põe mesa…

    Abraço! Adorei o post e adorei vc!

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    1. Nossa Bruna, é muito louco como apesar de sermos pessoas diferentes, passamos por coisas muito semelhantes né? É mesmo muito importante a gente se entender de forma mais leve, se cuidar pela nossa saúde, bem estar, estética também, mas desde que esse ponto não seja o que nos domine e defina! Obrigada pelo carinho! ❤

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  2. Caru Coelho do céu. Já era tua fã, agora sou fã num grau maior. Que texto mais maravilhoso. Historia,.story telling que me prendeu do início ao fim. Eu respondi as tuas enquetes. Eu faço parte das tuas estatísticas. E mais legal foi a forma como você trouxe todos esses dados, e alinhando isso com as tuas piras e tuas histórias, inclusive me identifiquei em vários pontos dela. Com certeza muita gente deve ter se identificado. Combo MC lanche da adolescência vindo de delivery sem a gente pedir. Ainda convivo com algumas consinhas desse combo que nunca saíram de mim as espinhas hahahhaa Mas não vou falar de mim não. Achei teu texto INCRÍVEL. Real mesmo. Parabéns. E como você disse ali no finalzinho é pra gente parar e refletir mesmo nessa coisa toda de auto imagem. E ver que é tudo uma questão de perspectiva mesmo e o que mais importa é o que vem de dentro. De nada ainda um prato lindo sem sabor, como tu bem coloscastes. Olhaaaa estou aplaudindo aqui! Musa! 😘😘 Beijos Meire de Urubici turma 1 (pra vc lembrar de mim)

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  3. O mundo precisava saber o que é morder o seu nariz bolota e se embrenhar nele como um gato faz na canela dasavizada, o mundo seria mais feliz como eu sou. Cada detalhe em vc é uma pirinha minha. Que a degenerescência venha viva a Vida e viva em verdade. Vontade de morder esse texto também ❤ grrhhhh fofa!

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